Se pela manhã o divertimento era plantar e regar, à tarde íamos à fonte buscar água fresca que levávamos para casa em pesados tonéis de madeira os quais, felizmente, eram transportados rolando sobre suas laterais que funcionavam como rodas e eram puxados por meio de uma alça entalhada de cada lado. Como toda criança, eu cobria minha mãe de perguntas e queria saber por que não utilizávamos as búfalas para a tração do tonel. Minha mãe explicava que não era tão grande nem tão pesado quanto me parecia a mim que era pequeno, e que os animais tinham outras funções mais importantes.
Chegando em casa, a água era transferida para a cisterna, apoiando-se o tonel numa reentrância escavada no arenito especialmente para esse fim, de forma a encaixar a abertura numa posição baixa, capaz de deixar escoar quase toda a água quando retirávamos a tampa de resina. Depois, era só dar mais um sacolejão com o tonel já bem mais leve, e o restante do líquido escorria para fora.
Algo que sempre me impressionou era a engenharia do fornecimento de água da nossa casa. Na cidade, dispunham de canais que conduziam pequenas quantidades de água, suficientes, porém, para as necessidades de todos. Nós vivíamos fora da cidade e precisávamos nos prevenir, pois contávamos só conosco. A cisterna foi escavada no arenito, mais macio do que a rocha, mas suficientemente resistente para suster o precioso elemento. As paredes internas eram revestidas de uma seiva retirada das árvores próximas a qual, depois de seca, ficava impermeável e aromatizava a água. O reservatório me parecia enorme e precisávamos de muitas viagens diárias para enchê-lo e mantê-lo assim durante todo o período em que a nascente fornecia água. Depois vinha a estiagem e passávamos meses sem chuva, utilizando somente o que tivéssemos conseguido estocar. Cada casa possuía a sua cisterna, umas maiores, outras menores. Algumas eram beneficiadas pela topografia do terreno, como era o caso da nossa.
O caminho conduzia até a abertura superior. Pelo outro lado, havia uma abertura em baixo com um engenhoso sistema de regulagem que só permitia a saída do suficiente para manter cheia uma cuba de pedra onde íamos buscar as quantidades necessárias para lavar-nos ou para beber e cozinhar.
Algumas vezes ocorriam vazamentos e faltava suprimento de água para alguma das famílias da aldeia. Então os vizinhos se cotizavam e cada um dividia sua água na medida do possível. Sempre deu para todos.
Como as funções eram alternadas, quando não precisávamos buscar água, íamos trazer as cabras e os búfalos para guardá-los perto da choupana.






Mestre.
Estava refletindo sobre esse livro (que adoro demais e já li muitas vezes) e pensei se poderia entendê-lo com um, digamos, manual de tradição shakta.
Será que estou “viajando”?
Grande beijo.
Rapha
É isso mesmo, Rapha.
Este post me fez lembrar um momento da minha infância. Desde os 6 anos de idade ia sempre à Portugal com meus pais e ficávamos hospedados na casa de pedra de minha avó paterna. Apesar de ser analfabeta e não ter contato com a civilização ela era dotada de uma sabedoria impressionante. Em casa não havia água e nem luz, por isso, todas as tardes íamos buscar água na fonte que ficava cerca de 1km de casa. Ela carregava a água em três cântaros enormes, de barro, cada um devia conter entre 10 a 15 litros (após uns dois anos já eram de plástico na cor azul celeste, mais levinho) um equilibrado na cabeça e os outros dois, um em cada mão. Fazíamos umas três viagens até ela ficar satisfeita. Como eu era pequenininha ia brincando pelo caminho, com as plantas, as pedras, o que achasse pela frente, e, em um dia de calor intenso, vendo-a cansada perguntei:
- Vó, porque você não traz o burrinho ou o cavalo para carregar a água? E ela respondeu muito docemente que era hora dos animais descansarem, pois tiveram um dia duro de trabalho (passávamos os dias pelos campos apanhando amêndoas, batatas e outras coisinhas). Quando chegávamos com o último carregamento, então era hora de alimentar e escovar os animais.
Esta lembrança estava adormecida em minha memória, esta e dezenas de outras, vindas, de uma pessoa teoricamente “inculta e atrasada”.
Ah, como era linda a nossa civilização dravídica, agora temos o dever de resgatá-la e protegê-la… Acho que minha avó viveu por lá. (rs)
Obrigada Mestre por estar tão perto de nós.
SwáSthya!
Mil bjs.
Ah, na casa de pedra não tinha forro e quando amanhecia podíamos ver os ratos andando nas vigas de madeira. Nem te conto o que minha avó falava dos lindos ratinhos…
Oh, conta, por favor…adoro histórias!
Pois é, Lara, os tais ratinhos só apareciam ao amanhecer, juntamente com os primeiros raios de sol. Faziam uma festa, corriam de um lado para o outro sem ir a lugar nenhum, apenas brincavam. Depois de uns cinco minutos, sumiam e não eram mais vistos até o dia seguinte no mesmo horário. Eu os via, pois havia um raiozinho de sol atrevido que brilhava bem em cima da minha cama me fazendo acordar, depois, voltava a dormir até a casa despertar. Um dia, algum adulto, não lembro quem, comentou que os ratinhos deveriam ser mortos. Ah, entrei em desespero… Nãaao, não vão matar os bichinhos, eu não vou deixar… E abri o berreiro pra valer. Logo minha avó veio me acudir, dizendo para eu não me preocupar, que eles eram da casa, e que ela não permitiria que ninguém fizesse mal a eles, e acrescentou que eles nunca desciam ao nosso convívio, que eram educados, e não gostavam da nossa comida, e ainda assim os gatos, (ela tinha uns cinco ou seis) não deixavam eles circularem pela casa e que eles, os ratos, nos protegiam de outros animais que poderiam nos fazer mal.
Um dia ela me chamou escondidinho no quintal dizendo que tinha algo para mostrar, mas eu não deveria contar a ninguém. Rapidamente concordei e nesse momento minha curiosidade ficou enorme. Aproximamo-nos devagarzinho de um muro, e, entre as pedras, um ninho, com vários ratinhos recém nascidos. Pode parecer nojento, mas não o era, incrível, eram apenas bebezinhos peladinhos, muito fofos e indefesos. E ela reafirmou: – Não digas nada a ninguém ou “eles” os matam. E ficou sendo um de nossos segredinhos.
Beijinhos.
PS: Imagine só, se todos os ratinhos do planeta fossem dizimados pelo homem “civilizado”, o desequilibrio ecológico e a catástrofe que se seguiria… êta humanidade involuida.
Oi Neide, tudo bem?^-^
Que histórias lindas da sua avó!
mi libro preferido!
Que gostoso entrar no seu blog Mestre.
É um mix de filosofia, arte, cultura, carinho, amizade, bons relacionamentos. Me faz tão bem dar uma passadinha por aqui!
Aprendo, me divirto, passo o tempo, conheço pessoas, aprendo, aprendo muuito em todos os sentidos. Minha mente e meu coração aprendem muito neste ambiente virtual.
Saudades de te dar uma abraço apertado!