Um dia resolvi procurar os saddhus, sábios eremitas que vivem em cavernas, nas montanhas geladas dos Himálayas. Para ter mais certeza de encontrá-los e também por medida de segurança, contratei um guia, Pratap Sing. Era minha primeira viagem àquela região, eu era novinho e ainda não conhecia nada de Índia.
Acordamos cedo e começamos a subir a montanha ao nascer do sol. Uma densa neblina cobria a floresta, mas o guia dava passos seguros morro acima.
– Sir, vou levá-lo para conhecer um grande yôgi, sir!
– Como é o nome dele? – Perguntei. O guia me disse o nome de um conhecido guru, muito famoso no Ocidente. Então, retruquei-lhe que não estava interessado em conhecê-lo e se esse tipo de mestre era o que ele considerava um grande yôgi, podíamos voltar dali mesmo, pois iria dispensar os seus serviços. Ele sorriu e abriu o jogo:
– Sir, o senhor entende mesmo de Yôga. Vamos, então, para o outro lado, sir.
– Mas, se você sabia que esse não é um verdadeiro yôgi, como ia me levar lá?
– Sir, eu ganho uma gratificação para cada turista que encaminhar. Mas vou levá-lo para conhecer saddhus de verdade se me pagar dobrado, sir.
Bem, o fato é que subimos a montanha durante mais de quatro horas. Durante a caminhada surgiram vários saddhus, mas dessa vez o guia cumpriu o trato e seguiu em frente sem se deter em nenhum deles. Eu já estava exausto quando fui surpreendido por uma figura que parecia saída dos contos de fadas. Era um saddhu, realmente, daqueles que não se encontram mais nas aldeias, nem em ocasiões especiais. Uma imagem impressionante. Completamente nu, pele curtida pelo frio e pelo sol, quase negro, todo coberto de cinzas, o que lhe conferia um tom violáceo, semelhante ao da representação da cor da pele de Shiva nas pinturas. Cabelos e barbas completamente brancos e muito longos. Um olhar forte e penetrante, olhos injetados de poder. Recordou-me Bhávajánanda.
Não tive tempo de falar nem fazer nada e ele já estava me dando ordens, passando instruções em língua hindi, num tom marcial, com o guia traduzindo apressadamente. Ensinou-me novos mantras, mudrás, ásanas e meditação. Se eu não acertasse em executar o exercício exatamente como ele queria, o Mestre rugia uma admoestação intraduzível.
Por vezes, o guia tentava falar com o saddhu, mas ele o ignorava. Não respondia e ainda dava-lhe as costas. Falava só comigo, porém, eu não entendia o idioma hindi e precisava do cicerone para traduzir. Apesar desse inconveniente, foi a ocasião em que aprendi o maior volume e a melhor qualidade de técnicas em tão pouco tempo. Foram umas poucas horas de aprendizado, umas sete ou oito, e o guia já estava inquieto, insistindo para irmos embora imediatamente. Depois de uma certa insistência, concordei, muito a contragosto. Levara a vida inteira para encontrar um saddhu de verdade e, no melhor da festa, precisava largar tudo e ir embora! Cheguei a aventar a hipótese de passar a noite lá, mas o guia ficou histérico com a possibilidade. Mais tarde descobri a razão.
Então, agradeci ao saddhu e cumprimentei-o da forma tradicional, fazendo o pronam mudrá, curvando-me até o chão e tocando-lhe os pés. Deixei-lhe minha sacola como pújá. Dentro havia uma manta, um livro meu (Prontuário de SwáSthya Yôga) e alguma comida.
Começamos a descer a montanha e logo compreendi o motivo da preocupação. Nas outras quatro horas que durou a descida, danou a esfriar e, no final da caminhada, começou a escurecer. Segundo o guia, se escurecesse conosco na floresta, nem mesmo ele conseguiria encontrar o caminho de volta e morreríamos devido ao frio. Numa viagem posterior à Índia, descobri que aquela região inóspita ainda tinha elefantes selvagens os quais atacavam quem se aventurasse por seus domínios, além de tigres e serpentes para viajante nenhum botar defeito. Como é que o saddhu conseguia sobreviver lá? E pela aparência já devia ter muitos anos de idade vividos, quem sabe, ali mesmo.
Nessa noite fez tanto frio que tive de acordar algumas vezes no meio da madrugada para praticar bhastriká, um respiratório que eleva a temperatura do corpo, e, só assim, consegui dormir de novo. Aí pensei: estou cá em baixo onde a temperatura é mais amena, estou dentro de um alojamento fechado, numa cama, com roupas de lã e cobertores. Como é que sobrevive aquele velho saddhu lá em cima, onde é muito mais gelado, sem roupas, dormindo no chão, dentro de uma caverna de pedra úmida, que não tem nem portas para evitar o vento gélido?
No dia seguinte partimos mais cedo, antes de amanhecer, para dispormos de mais tempo com o Mestre. Pensei que fosse encontrar um picolé de saddhu, mas qual nada. Logo que chegamos, ele, super energético, começou novamente a dar ordens e instruções. Achei interessante o fato de que ele havia me ensinado certos ásanas no dia anterior e insistido para que os executasse de uma determinada maneira. Neste segundo dia, ensinara ásanas (pronuncie “ássanas”) novos e revisara os do dia anterior, só que queria que eu os fizesse de outra forma. E no terceiro dia ia querer de uma outra maneira. Talvez fosse para me tirar a imagem estereotipada de que só há uma forma estanque de executar e mostrar-me que diversas variações podem estar igualmente corretas. Ou, possivelmente, seria sua intenção produzir um resultado evolutivo, diferente a cada dia.
Mandou-me sentar à sua frente e repetir os mantras que fazia. Quando não vocalizava exatamente igual, ele rosnava alguma coisa em hindi, cuja tradução era perfeitamente dispensável. Depois fez o mesmo com a meditação. Assim que me dispersava, ele grunhia, como se estivesse vendo o que se passava dentro da minha cabeça.
Novamente o guia começou a ficar nervoso, só que desta vez atendi logo. Deixei um pújá, despedi-me da forma convencional e descemos o mais rápido que conseguimos.
O terceiro dia foi o melhor de todos. Dava para sentir a energia no ar. Percebi que estava entrosado. O Mestre não rugiu nem rosnou nenhuma vez. Em dado instante, enquanto eu executava um ásana, ele me passou o kripá, um toque que transmite a força e confere ao iniciado o poder de, por sua vez, transmiti-la aos seus discípulos.
Após o kripá, o próprio saddhu considerou encerrada a aula e, pelo visto, o curso. Mandou-nos embora como quem já tinha feito o que devia e entrou na caverna.
Na manhã seguinte, subimos outra vez, só que não encontramos mais o Mestre. Não estava na caverna nem nas imediações. Esperamos até tarde. Ele não voltou. Assim, compreendemos que havia considerado completa a iniciação que me conferiu nos três dias. Descemos e não subimos mais.




quinta-feira, 12 de março de 2009 às 12:02
yaelbarcesat.com
Justamente ayer tuvimos círculo de lectura y leímos este texto. Es muy inspirador, y nos quedamos conversando con los alumnos sobre la importancia del toque físico, imaginando que probablemente el kripá del saddhu habría sido el único acercamiento corporal que se dio durante todos esos días. Entonces me acordé de tu reciente post, Touch healing, y pensé por un instante qué diferentes serán los relatos de los que estuvieron en contacto con Maestros de nuestro linaje. Quiero ser viejita y leer esos textos!!!
DeRose Reply:
março 12th, 2009 at 12:09
Yo quiero que, quando seas viejita, escribas esos textos! Pero, para que esperar? Escribalos ya. Besotes.
Yael Barcesat Reply:
março 13th, 2009 at 2:06
Esperé hasta la noche para responderte con este escrito que ya tiene un tiempo, y que da cuenta de mis sensaciones a medida que te fui conociendo (no hace falta que lo publiques en el blog, sólo quería que sepas que no voy a estar en silencio hasta ser viejita!
Maestro.
Te conocí hace tanto, pero recién ahora siento que estamos juntos. Durante el primer tiempo era raro saber de la existencia de alguien que parece representar todo a lo que uno aspira: la sensación de llegar a un sitio largamente añorado, que ya casi creíamos fuera del alcance.
Enseguida llegó el contraste de la fantasía y la realidad, las sorpresas habituales: el Maestro también es un ser humano, el Maestro disfruta de un cariño, de una música, de un poema… de un momento con amigos. Esos insospechados momentos que empecé a compartir con vos despertaron mi curiosidad de conocer a DeRose, aquella persona especial cuyo rótulo me impresionaba.
Con más lentitud que constancia fui aprendiendo a reírme con la risa de siempre en tu presencia, a chapucear palabras en un portuñol incipiente, a comer mis usuales tres platos seguidos en la cena y escuchar tu sonriente sentencia: sabio es quien deja lugar para el postre.
Sos Maestro pero también sos familia. Relación múltiple, difícil de describir y que día a día se enriquece con más experiencias, más cariño, siempre en crecimiento.
Me descubrí discípula más que nunca cuando corregiste mis escritos, una y otra vez. Con una ternura a prueba de impaciencias fuiste encauzando ese río que surge a borbotones con cada texto, probablemente conciente de que es un trabajo sin fin. ¡Estamos iguales, entonces! Mi amor tampoco tiene fin, Maestro.
quinta-feira, 12 de março de 2009 às 12:36
Essa história é uma das minhas preferidas. O verdadeiro conhecimento, lá no alto, no topo da nossa montanha interior. Não vejo a hora de poder revê-lo Mestre, de saborear sua presença e sabedoria. Meu sol voltou a brilhar.
quinta-feira, 12 de março de 2009 às 13:48
Ontem mesmo estava comentando sobre este trecho do livro Quando é preciso ser forte. É uma das minhas partes favoritas. Ai Mestre quero te ver logo pra te dar um beijo e um abraço cheio de carinho!! Você é lindo! em tudo o que faz!
Obrigada sempre ! Você faz parte de um dos episódios mais importantes da minha vida… e é uma constante no meu dia-a-dia.
quinta-feira, 12 de março de 2009 às 17:55
Que honra estar em contato com o Mestre.
quinta-feira, 12 de março de 2009 às 19:47
Olá Mestre!
Nossa…ontem estava comentando sobre essa belíssima passagem. Pelo visto outras pessoas entraram no mesmo comprimento de onda!
Um grande abraço apertado e carinhoso!
sexta-feira, 13 de março de 2009 às 0:44
julianatoroswasthya.multiply.com
Adoro essa parte do livro! Viajo até os Himalaias, mas acho que ia ficar com medo desse saddhu Mestre rsrsrsrs
Aliás,sempre que leio sobre saddhus eu lembro de um quadrinho do “Is No Good”, rsrsrs alguém conhece? é do mesmo escritor que o Asterix…=)
beijos muitos muitos!!
sexta-feira, 13 de março de 2009 às 2:31
Lendo esta história, eu me lembrei da primeira vez em que eu li o livro Yôga, Mitos e Verdades. Era como se eu estivesse junto com o Mestre, principalmente no momento em que o Mestre chega de avião na Índia e descreve os detalhes do entardecer, as nuvens… nossa, emociono-me só de lembrar. Imagino se um dia eu tivesse a oportunidade de realmente estar ao lado do Mestre em uma viagem dessas. Seria realmente um privilégio.
Um beijo
sexta-feira, 13 de março de 2009 às 12:15
edgardocaramella.com.ar
Querido Dê:
Giordano Bruno, poeta, filósofo y educador, afirmaba al respecto que; “…un artista liga (une) por su arte, ya que el arte es belleza modelada por el artista…” (Bruno Giordano. Des liens. París. Allia. 2001. Página 10).
El Maestro une a partir del arte de enseñar, a sabiendas que enseñar no es dar algo que el otro no posee, sino satisfacer una necesidad, un deseo de aquel que busca cubrir una falta de saber. Es un arte porque esculpe, cincela, da forma y estimula al discípulo a sacar aquello que le es propio y que constituirá la fuerza para poder transmitir a su vez.
Para ser Maestro hay que tener una profunda vocación, ejercerlo con un sentido verdadero y loable de dedicación y por sobre todo de honestidad.
Ese es De Rose, el que enseña siempre. Con la palabra, con el ejemplo, con sus libros, con el acierto y a veces hasta con el error. Un ser humano con vocación de Maestro que tiene la virtud de estimular, de hacer avanzar, de “iluminar” y que en todo momento comparte conocimientos obtenidos de la experiencia y de ir en la vanguardia.
Te elegí mi Maestro de Yôga porque primero pude conocer al hombre, al ser humano que lucha, que siente, que comparte, que vive para un ideal que es su vida: enseñar con honestidad y coherencia. Con una actitud similar a la de un sembrador, que cuida celosamente sus semillas y las esparce con generosidad en tierra fértil, para que nazcan nuevas plantas que continúen dando frutos.
Porque conocí el SwáSthya, la filosofía que rescató de sus fuentes más antiguas, sistematizó y transmite de forma pura y auténtica, hoy trato de llevar adelante la misma causa, reconociendo siempre que fue aquel hombre especial el que me alumbró, el que me mostró que enseñar vale la pena, que cada día podemos ser más felices si damos lo que hemos recibido, estableciendo así una eterna cadena solidaria de transmisión de conocimiento que nos hará más libres y humanos.
Por ello, gracias Amigo, gracias Maestro. Y que la historia registre ahora y en la eternidad, tu paso por la vida y tu obra ejemplar.
Con amor sincero,
Edgardo Caramella
Maestro de SwáSthya Yôga
Presidente de la Federación de Yôga de Buenos Aires (FIPPYBA)
terça-feira, 17 de março de 2009 às 12:20
alexandremontagna.com/blog
Estes capítulos que expõem a Índia e as tuas experiências são os meus prediletos.
És o meu Mestre da montanha. O Mestre “do Montagna”.
DeRose Reply:
março 17th, 2009 at 13:03
Com muita honra, Montagna!