Os Himálayas
Chegando ao meu destino, a cidade de Rishikêsh, fiquei apaixonado pelo lugar. O rio Ganges corre límpido e caudaloso nessa região montanhosa, relativamente próxima da nascente. Pode-se meditar às suas margens, banhar-se em suas águas, cruzar o rio de barco ou pela ponte pênsil. (Ah! Quando conheci essa região a ponte nem sequer existia…)
Rishikêsh é uma cidade muito bonita e imantada com a magia dos séculos. Era uma emoção simplesmente estar ali e saber que aquele solo foi pisado por alguns dos maiores iluminados dos últimos 5000 anos. Ainda hoje, swámis (monges) e saddhus (ermitões) são vistos com frequência. Há dezenas de mosteiros, templos e Mestres de Yôga, de Vêdánta e de outras disciplinas. Os curiosos geralmente deixam-se seduzir pela multiplicidade de escolas e começam a agir como crianças à solta numa loja de chocolates. Misturam tudo, fazem uma bruta confusão e não aprendem nada.
Eu sabia o que queria. Estava indo para o Sivánanda Ashram (pronuncie Shivánanda Ashrám), um dos mais conceituados mosteiros da Índia. Nenhum outro chamariz iria me desviar da meta. Lá encontrei coisas realmente muito boas, tanto que voltei a essa entidade quase todos os anos a partir de então, durante mais de vinte anos. Nesse ashram tive a oportunidade de aprimorar mantras, conhecer mais variedades de pújá, melhorar o sânscrito (especialmente a pronúncia), desenvolver Karma Yôga, Bhakti Yôga, Rája Yôga, sat sanga, meditação, teoria Vêdánta e travar contato com o verdadeiro Hatha Yôga da Índia.
Uma coisa que me chamou a atenção nas práticas de Yôga da Índia, foi o fato de não encontrar lá aquela insistente repetição dos estribilhos comuns nas aulas do Ocidente, recitados com voz doce e de impostação hipnótica, tais como: “calma… não force… suavemente… ótimo, muito bem… cuidado… isso é perigoso…” Ao invés, encontrei ordens severas: “Força! Você pode fazer melhor do que isso! Quero ver mais empenho nessa execução! Aguente mais!”
Eu era jovem, desportista e praticava muito bem os ásanas. Não obstante, às vezes ficava com o corpo todo dolorido depois de uma aula, coisa que no Ocidente não se admite. Mais tarde concluí que a maneira deles era mais coerente, pois Hatha significa força, violência[1].
Na minha primeira prática de Yôga no Sivánanda Ashram, o instrutor mandou-me executar exercícios adiantados, como padmásana, nauli, sírshásana, vrishkásana, mayurásana e outros. E isso sem pedir nenhum exame médico, o que denota um espírito muito mais descomplicado da parte deles. Falou-se livremente sobre a kundaliní (pronuncie sempre com o í final longo), sem o professor assustar ninguém, nem exagerar seus eventuais perigos.
Outra demonstração da descontração reinante no Yôga da Índia é o fato de as aulas serem dadas num clima informal, no qual está aberta a possibilidade do diálogo e até mesmo a de uma anedota posta por um aluno em classe, como ocorreu nesse inverno de 1975. Havia um monge velhinho, cuja função era a de tocar o sino a cada hora certa. Estando muito frio às cinco da manhã em pleno inverno dos Himálayas, ele se refugiou na nossa sala de prática, onde o calor dos corpos de muitos yôgins aquecera o ambiente. No meio da aula ele começou a cochilar e pender a cabeça. Um aluno não perdeu a oportunidade de brincar:
– Olhe lá, professor! O swámiji entrou em samádhi!
O professor riu, todos riram e, em seguida, retomaram a aula com muita disciplina. Aliás, só conseguem essa descontração por existir simultaneamente um profundo senso de disciplina, respeito e hierarquia que falta na maior parte das escolas do Ocidente.
Em suma, gostei do Hatha Yôga e do Rája Yôga experimentados no Sivánanda. Para dar uma ideia do quanto esse ashram (mosteiro) me agradou, basta dizer que ele é de tendência Vêdánta e, apesar disso, recebi lá boas aulas de Sámkhya, o que constitui um raríssimo exemplo de tolerância.
Mais um eloquente exemplo é o fato de que um dos melhores livros de Tantra Yôga foi escrito pelo fundador Srí Swámi Sivánanda, sendo ele de linha oposta (brahmáchárya). Tudo isso contribuiu para, em meus retornos posteriores à Índia, acabar frequentando muito mais essa instituição do que qualquer outra, durante vinte e quatro anos de viagens à Índia.
Depois do Sivánanda Ashram, tive o privilégio de visitar e participar de aulas no Kaivalyadhama, de Lonavala; Iyengar Institute, de Puna; Yôga Institute de Srí Yôgêndra, em Bombaim (atualmente denominada Mumbai); Muktánanda Ashram, de Ganêshpuri; Aurobindo Ashram, de Delhi; todas muito boas escolas, de renome mundial, mas cada qual apresentando uma interpretação, um método e até mesmo uma nomenclatura diferente das outras. Isso me foi tremendamente educativo e ampliou minha tolerância em 360 graus. Nessas viagens conheci pessoalmente e recebi ensinamentos diretamente de grandes Mestres como Chidánanda, Krishnánanda, Nádabrahmánanda, Turyánanda, Muktánanda, Yôgêndra e outros. Segundo os hindus, eles foram os últimos Grandes Mestres vivos, os derradeiros representantes de uma tradição milenar em extinção[2].
[1] A palavra hatha é traduzida como violência, força, pelos conceituados autores e livros:
Tara Michaël ‑ O Yôga, Zahar Editores, página 166;
Iyengar ‑ A Luz do Yôga, Editora Cultrix, página 213;
Georg Feuerstein ‑ Manual de Yôga, Editora Cultrix, página 96;
Renato Henriques ‑ Yôga e Consciência, Escola de Teologia, pág. 276 (da 1a. edição);
Mircea Eliade ‑ Inmortalidad y Libertad, La Pléyade, página 223;
Theos Bernard ‑ Hatha Yôga una tecnica de liberación, Siglo Veinte, página 13;
Monier-Williams ‑ Sanskrit-English Dictionary, página 1287.
[2] No momento em que esta edição é publicada já estão todos falecidos.






É impressionante como aqui no Ocidente, as pessoas não conseguem entender a ligação direta entre disciplina, respeito e hierarquia com alegria e descontração.
É possível ser uma pessoa alegre, feliz, entusiasmada e ao mesmo tempo ter uma excelente disciplina com a prática, com o trabalho, respeitar os colegas e os superiores hierárquicos.
A maioria dos que praticam o SwáSthya Yôga, o Yôga Antigo, são assim.
Lembre-se das últimas características do nosso Método. A seriedade superlativa e a alegria sincera.
Sejamos superlativamente sérios com a nossa proposta e alegres com a nossa escolha de tornar o mundo um lugar melhor para se viver.
Lerivan, na verdade, se reparar bem, os mesmos termos utilizados no exército (um lugar não muito conhecido por ter pessoas sorridentes, a meu ver) são utilizados nas empresas, como ‘estratégias’ e ‘campanhas’, por exemplo. Daí, por associação, as pessoas entendem que para ser reconhecido como sério, tem de, citando o Mestre, fazer “cara de santo cristão e, às vezes, babar um pouco.”
Mas aos poucos, essa postura pode mudar, se cada um fizer a sua parte.
Um sorriso para o espelho é um ótimo começo
Relatos como estos, considero que son muy importantes porque nos muestran la realidad del yoga en la India y en occidente.
Esta visión nos estimula a compenetrarnos en un compromiso profundo con el Swásthya Yôga y su propuesta.
Concuerdo completamente con el comentario de Lerivan Rivero.
These stories from your travels through India are wonderful! Your perspective is enlightening and refreshing.
Thanks for sharing Master!