Olá Mestre,
Como recordação de Portugal, gostaria de deixar aqui um texto de Gil Vicente, retirado do “Auto da Lusitânia” (1531). Acho que tem um jogo de linguagem fabuloso.
Na segunda parte do auto, assiste-se ao casamento de Portugal, cavaleiro grego, com a princesa Lusitânia. Dois demônios, Belzebu e Dinato, vêm presenciar o casamento e escutam o diálogo entre um rico mercador, “Todo o Mundo” e um homem pobre, “Ninguém”:
“Entra Todo o Mundo, rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que perdeu; e logo após, um homem, vestido como pobre. Este se chama Ninguém e diz:
Ninguém: Que andas tu aí buscando?
Todo o Mundo: Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando
por quão bom é porfiar.
Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?
Todo o Mundo: Eu hei nome Todo o Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo.
Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.
Belzebu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
Dinato: Que escreverei, companheiro?
Belzebu: Que Ninguém busca consciência.
e Todo o Mundo dinheiro.
Ninguém: E agora que buscas lá?
Todo o Mundo: Busco honra muito grande.
Ninguém: E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.
Belzebu: Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo,
que busca honra Todo o Mundo
e Ninguém busca virtude.
Ninguém: Buscas outro mor bem qu’esse?
Todo o Mundo: Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fizesse.
Ninguém: E eu quem me repreendesse
em cada cousa que errasse.
Belzebu: Escreve mais.
Dinato: Que tens sabido?
Belzebu: Que quer em extremo grado
Todo o Mundo ser louvado,
e Ninguém ser repreendido.
Ninguém: Buscas mais, amigo meu?
Todo o Mundo: Busco a vida a quem ma dê.
Ninguém: A vida não sei que é,
a morte conheço eu.
Belzebu: Escreve lá outra sorte.
Dinato: Que sorte?
Belzebu: Muito garrida:
Todo o Mundo busca a vida
e Ninguém conhece a morte.
Todo o Mundo: E mais queria o paraíso,
sem mo Ninguém estorvar.
Ninguém: E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.
Belzebu: Escreve com muito aviso.
Dinato: Que escreverei?
Belzebu: Escreve
que Todo o Mundo quer paraíso
e Ninguém paga o que deve.
Todo o Mundo: Folgo muito d’enganar,
e mentir nasceu comigo.
Ninguém: Eu sempre verdade digo
sem nunca me desviar.
Belzebu: Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.
Dinato: Quê?
Belzebu: Que Todo o Mundo é mentiroso,
E Ninguém diz a verdade.
Ninguém: Que mais buscas?
Todo o Mundo: Lisonjear.
Ninguém: Eu sou todo desengano.
Belzebu: Escreve, ande lá, mano.
Dinato: Que me mandas assentar?
Belzebu: Põe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo o Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.”
Beijinhos lusitanos!
Susana Sousa
Espaço Lifestyle – Lisboa






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Que irado, Susana.
No Brasil, em literatura, nós estudamos Gil Vicente, mas esta obra eu sequer conhecia, conhecia apenas a frase que o Mestrão cita as vezes que tem dois destes personagens. Obrigado por compartilhar
Beijos
Diogo Toledo
Matosinhos – Portugal
Estava à ler um pouco de Camões quando de repente novo post no blogue do DeRose, com Gil Vicente!!.. Adorei a simples coincidência ou mera sintonia! Temos mesmo muito bons textos, livros e obras de autores e escritores lusitanos. Agrada-me particularmente a forma de escrita mais antiga, mas tão requintada. Um beijo romano!
Sonia Monteiro – Porto Portugal
a ler
Obrigada pela correcção! Quando vi a gralha não consegui voltar atrás para a corrigir… Um abraço muito forte!
Que legal o texto, mais ainda quando se conhece a data em que foi escrito… imagina, o autor desse poema nem imaginou a existência da internet, mas ele está na internet.
Que sistemas do futuro nos nem imaginamos, mas lá estaremos, se escrevemos?
Beijinhos em manhã de sol,
Anahí
Buenos Aires
É muito bom ler estes textos bem escritos!
Olá Mestre,
Ontem mesmo estava ouvindo a uma palestra sobre mitologia e lá estava, em um dos mitos de Odisseu (Ulisses), exatamente o que Gil Vicente relata no texto acima, que o verdadeiro herói é Ninguém.
Sempre me recordo da vivência e dos conceitos de egrégora, código de ética do yôgin, gurusêva, pújá, karma yôga e etc.
Acho que escolhemos um lindo caminho entre os caminhos dos justos.
Obrigado e um forte abraço de discípulo.
Sempre apreciei os autos do pai do teatro português, mas desconhecia esta peça.
Obrigado pela partilha.
Beijos
—
Método DeRose Campo Alegre | Porto | Portugal
Wow un texto escrito en 1531 y que aún en el 2010 podemos leer sin que haya perdido nada de verdad en el tiempo…. :S
Todo el mundo debería de leer el cuento y Ninguno debería releerlo.
Besos y gracias por siempre tener algo interesante y constructivo para compartir.
Dimas H. Arias
Santo Domingo, Rep. Dom.
Encontre esta película que creo que le pueda interesar, lo divertido fue que la vi al día siguiente de leer este post
Espero que le guste
Abrazos
A parte que mais gostei foi: “Que Ninguém busca consciência e Todo o Mundo dinheiro”
Acontece que não conheciam o Método DeRose…
Olá,
Segue um link sobre dar uma mão ao nosso planeta, achei que também tem a ver.
Beijos a todos!
Ticiano P Machado
Un. Batel
Curitiba
O personagem que mais gostei foi o Belzebu: diz as verdades, que ninguém quer ouvir…
Enquanto isso, vamos treinando metabolizar todas as normas éticas da Nossa Cultura. Afinal, nem só de coreografias vive um DeRoseano.
Beijos alaranjados brilhantes com detalhes éticos branquíssimos…rs