Hoje, aula ao vivo com DeRose
segunda-feira, 24 de maio de 2010 | Autor:

Fique feliz ao rever meu velho e bom amigo Sérgio Santos, Presidente da Federação de Minas. Ele está contente, querido e bonitão. Os cursos foram realizados sob a competente batuta do Isaac, que agora está dirigindo a Unidade Savassi. Preciso elogiar as coisas boas que testemunhei: a sede da Federação está mais bonita, os instrutores atuais são muito bons, os recém-formados e os que estão na formação são muito perfis, gente jovem e bonita. Os alunos estão melhores, mais engajados, mais amorosos. No sábado, jantamos na casa da Beth, onde eu me senti em casa. Adorei o bom-gosto e as pessoas que compareceram. No domingo, jantamos na casa da estimada Profa. Maria Lúcia, que já nos brindou com várias palestras e aulas, tanto no Matando um leão por dia, quanto no Curso de Pós-Graduação. Eu ficaria horas escutando com prazer suas palavras e admirando seu bem-humorado brilhantismo .

Fiquei bem satisfeito com tudo isso. Só me entristeceu o pequeno número de participantes dos cursos e da noite de autógrafos, assim como o fato de os cursos não terem se realizado por uma universidade. Também não devem ter sido divulgados fora do estado, pois só havia gente de Belo Horizonte, o que constitui uma exceção. Aos meus cursos no Brasil costumam comparecer inscritos de cinco ou seis estados. Na Europa, comparecem inscritos de seis ou sete países. Mas o pequeno número foi compensado pela grande qualidade. Ministrei os cursos com o entusiasmo que eles me proporcionaram pelo brilho em seus olhinhos e pelo calor do seu afeto. Nunca tivemos uma turma tão boa em Belo Horizonte. Apesar de baqueado por uma gripe, acho que consegui dar cursos flamantes para demonstrar minha gratidão aos que me prestigiaram com a sua presença.

Agora, é metabolizar o que foi ensinado e procurarmos todos manter-nos mais alinhados com as diretrizes traçadas pelo Conselho. É manter-nos bem atualizados, viajar bastante para estarmos juntos, não só no carinho, mas no pique de trabalho. Agora é compartilhar o entusiasmo com os alunos para que leiam os livros e frequentem o blog. E batalhar pela certificação.

Parabéns, Isaac. Parabéns, Més Sérj. Parabéns, instrutores de Belzonte. Parabéns, Minais Gerais! Obrigado por tudo e me vou levando uma doce saudade de cada um.

  1. Pingback: Tweets that mention Blog do DeRose | Uni-Yôga » Blog Archive » Neste fim-de-semana dei dois cursos em BH -- Topsy.com

  2. Autor: Marcello

    Mestre, obrigado pelo carinho das suas palavras. A sua presença é sempre catalisadora e faz com que nós tenhamos cada vez mais força e garra para continuar a nossa missão. Temos certeza que a “bronca” foi devida e nos estimulará a trabalhar ainda mais e transformar BH num pólo irradiador da nossa Cultura.
    Obrigado mais uma vez pela sua presença e pelo seu carinho e, principalmente, obrigado por continuar a acreditar em “belzonte”.

  3. Uma tirinha sobre sonhos.

    http://ryotiras.com/wp-content/uploads/2010/05/fila.jpg

    Acho que se ele tentasse a fila dos que “trabalham para realizam o sonho” ela estaria curta.

    DeRose |

    Muito bom! É exatamente assim. Tudo dá muito trabalho. Então, por que não batalhar pelos nossos sonhos?

    Tabatha Fiorini Real |

    Muito boa!

  4. Autor: Florencia Callaci

    Queridísimo Mestre!!!Que privilegio contar con tu poderosa presencia, transformadora. Ciertamente tus sabias palabras quedan retumbando en nuestras cabezas y se transformarán en acciones efectivas… Los cursos fueran maravillosos y la convivencia en este fin de semana dejó nuestros corazones repletos de felicidad! Gracias y mil veces gracias a vos y a la preciosa Fê!!!!!!

    DeRose |

    Conto com seu apoio e engajamento para transformarmos a realidade atual em algo que nos dê a todos muita gratificação e excelentes expectativas de futuro.

  5. Autor: LucasDuarte

    Mestre, fiquei muito contente em participar do seu curso.
    Muito carinho e satisfação foram o que cada segundo nos proporcionou.
    Será sempre uma honra receber você em nossa cidade.
    Tenho certeza que todos sentiram o mesmo.

    Abraços,
    Lucas Duarte – Serra

    DeRose |

    Obrigado, Lucas. Espero que minhas palavras tenham tocado o seu coração e que produzam fruto. Um abraço forte.

  6. Autor: Anahi Flores

    Hoje é o niver de Beto, Parabéns!
    Aqui em Buenos Aires é feriado, será por isso? Hehehe.
    Beijinhos e bom dia
    Anahí

  7. Abraço do coração!

    Vi hoje um documentário que nos toca a todos por todos os poros do nosso existir (http://selvaurbana.blogs.sapo.pt).

    “Praticamos o oposto do que acreditamos e pensamos defender.

    Viramos as costas pensando ser algo distante, responsabilidade de outrém, mesmo sendo este o mundo que vamos deixar a nossos filhos.

    Como é possível ensinar-lhes valores se diariamente cada um de nós os atropela, mesmo os mais básicos?

    Vamos acordar? Se não for por nós, façamo-lo pelos nossos filhos!”


    DeRose |

    Era preciso que todos assistissem o filme de que trata este trailer. Obrigado por lembrar-nos. Beijo-vos a alma.

  8. Autor: Alice

    Passado o fim de semana, tenho a sensação de que foram meses de intenso aprendizado. Os cursos foram excelentes, estão em processo de assimilação, e a mensagem ressoa forte, na vontade de impulso com pulso de fazer crescer Nossa Cultura por estas terras.

    Mestre, melhoras, obrigada pelo carinho e dedicação imensuráveis e abraço grande: para a Fernanda também, enorme, aprendi muito com ela.

    DeRose |

    Obrigado, querida. Conto com você para fazer crescer a Nossa Cultura nas Minas Geraes bem alinhada conosco. Beijinho.

  9. Autor: Diego Ouje

    Nuevamente en Buenos Aires
    Hola Mestre !
    Acabo de llegar y les cuento que la mamá de Edgardo está evolucionando favorablemente. Si todo continúa así, en dos o tres día ya estará en su casa donde continuará su recuperación.
    Viajamos con Yael y pasamos un domingo muy lindo. Con ella y con Edgardo pasan las horas y no paramos de charlar, de programar alguna cosa y de reirnos de lo que fuera.
    Ethna es una persona hermosa, con quien dá mucho gusto estar, conversar y escuchar sus historias y anécdotas.
    Estoy feliz por haber estado en Venado Tuerto, ver que todo va bien y poder traerte estas noticias.
    Abrazos y nos vemos en Florianópolis.

    DeRose |

    Gracias por las notícias. Estoy feliz por las mejoras de la Mamá de Edgardo. Ya nos vemos. Besos.

  10. Autor: Leilane Lobo

    “Més Sérj” ficou chique, parece Francês! hehehehehe

    Mestre,
    Quero te dizer que estou feliz e ansiosa, mas uma vez neste ano vou vê-lo! Da nossa escola em Fortaleza vamos em 19 para Floripa!
    Mas quero te dizer que estou mais feliz ainda porque nos veremos muito mais, estou de mudança para São Paulo, estou feliz e empolgada com minha decisão e meus pais estão satisfeitos com a oportunidade que a Rede dá para apliarmos horizontes, culturas e fazermos este intercâmbio profissional.

    Um beijo muito especial!

    Instra. Leilane Lobo
    Unidade Dom Luís

    DeRose |

    Seja bem-vinda! Beijúss.

  11. Autor: gabriel mourao

    Mestre,
    Obrigado por tudo; pelos ensinamentos, pelo carinho e principalmente por seu exemplo.
    Sua presença foi uma grande injeção de inspiração e entusiasmo em nossa Egrégora.
    Ontem após o curso percebi nitidamente que estamos mais motivados a trabalhar para o fortalecimento do método em Bh, e tenho certeza que vamos reverter o quadro atual. A hora é agora.
    Um forte abraço.

    DeRose |

    Gostei. Sinto que posso contar com você. Um abração.

  12. Autor: danieltonet

    Parabéns aos amigos de Minas!

  13. Autor: Oc Rodrigues

    Mestre, Obrigado mais uma vez por sua presença tão marcante e transformadora! Belzonte se enche de alegria a cada visita sua! Obrigado pelas críticas ao nosso trabalho aqui na terrinha do pão-de-queijo. Vamos trabalhar para potencializar a divulgação do Método DeRose em BH, em nome de todo o carinho que temos por você e seu nobilíssimo trabalho! Grande abraço!

    DeRose |

    E vamos trabalhar também para manter o nome do Método imaculadamente limpo, ok?

  14. Autor: DeRose

    Uau! Charles, que boas notícias! Parabéns pela sua excelente administração.

  15. Autor: Sol Montenegro

    Parabens Belo Horizonte! Saludos desde Buenos Aires

    Sol

    Directora de la Sede Palermo
    Buenos Aires

    Marcello |

    Obrigado Sol. Estamos trabalhando e desejamos chegar ao nível de vocês, como 140 inscritos no curso do Mestrão. No DeRose Festival da Argentina eu e mais alguns instrutores do Método de BH estaremos aí.

    Grande abraço.

    Sol Montenegro |

    Los esperamos en Buenos Aires!
    Besos

    Sol

  16. Autor: isaacfreire

    Obrigado por ter vindo a Belo Horizonte.
    Obrigado pelos elogios, no próximo curso teremos no mínimo o dobro de participantes, apenas reitero que ainda não sou o diretor da Savassi pois não fiz o estágio na sede central.
    Conte comigo sempre querido Mestre!
    Até Floripa!

    DeRose |

    É verdade, quanto ao estágio. Sua resposta demonstra o quanto você está afiado.
    Por outro lado, está muito modesto. Por que o dobro? Se os números citados como exemplo foram 140 em Buenos Aires, 160 em BH antigamente, 300 no Rio de Janeiro, por que nos contentarmos com uma meta tão pequena? Por que não organizar um curso digno da nossa estatura, numa universidade e com a participação de São Paulo, Rio, Bahia, Brasília, Goiânia, Fortaleza, Belém, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Buenos Aires e outras cidades importantes? Eu não teria chegado até aqui se não tivesse metas ousadas e se não “cometesse” ações efetivas para realizá-las.
    Não foi elogio. O que eu disse é porque confio na sua capacidade. E você está me demonstrando, a cada dia, que merece essa confiança.

    Fernanda Neis |

    Pots eu li e pensei, que chato, vou ter q eu falar que o Isaac não é diretor.
    Obrigada querido por ter facilitado, pela honestidade, pela amizade.
    Beijos da Fê

  17. Autor: DeRose

    Olá Mestre!

    Estou ainda extasiada com duas paletras que assisti hoje, aqui no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, onde trabalho.

    Fui premiada com as presenças de dois homens comprometidos com a probidade e a sustentabilidade:
    Dr. Sérgio Ferraz é um advogado brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras Jurídicas e decano do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil.
    Foi presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros, consultor jurídico do Ministério da Justiça e professor titular de Direito Administrativo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É atualmente consultor jurídico e advogado militante.

    Dr. Jessé Torres Pereira Junior, Desembargador com assento efetivo na 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, promovido por merecimento em 27 de março de 2006.

    O Dr. Sergio Ferraz, destacou a importância do princípio da moralidade, no campo de atuação dos gestores dos recursos públicos, como também, no campo de atuação dos órgãos de controle interno e externo (TCEs). E da aplicação da Lei da Probidade Administrativa. (http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%208.429-1992?OpenDocument).

    Já o Dr. Jessé Torres Pereira Júnior, aproveitando o tema probidade administrativa, combinou-a com o novo princípio constitucional da sustentabilidade e ao final leu a Oração da Sapiência, proferida por Mia Couto e a síntese dos Sete Sapatos Sujos que temos que deixar na soleira do Portal da Evolução.

    O Dr. Jessé enfatizou o harmonioso casamento do artigo 3º da Lei Federal de Licitações, acrescido do princípio da sustentabilidade, combinado com o artigo 225 da Constituição Federal, que preconiza:

    Lei Federal de Licitações:
    Art. 3º A licitação destina-se a garantir a observância do princípio constitucional da isonomia, a seleção da proposta mais vantajosa para a administração e a promoção do desenvolvimento nacional sustentável e será processada e julgada em estrita conformidade com os princípios básicos da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da igualdade, da publicidade, da probidade administrativa, da vinculação ao instrumento convocatório, do julgamento objetivo e dos que lhes são correlatos. (Redação dada pela Lei nº 12.349, de 2010)

    Carta Magna Brasileira:
    Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. (g.n.)

    Pesquisei sobre Os sete sapatos sujos e abaixo, copiei o texto completo.

    O texto é longo, se o senhor achar mais conveniente suprimi-lo, o link encontra-se ao final.

    Mia Couto, nascido António Emílio Leite Couto (Beira, 5 de Julho de 1955), é um biólogo e escritor moçambicano.

    (Extraído do Vertical N° 781, 782 e 783 de Março 2005)

    Oração de Sapiência na abertura do ano lectivo no Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique (ISCTEM) em 2005, proferida por Mia Couto.

    OS SETE SAPATOS SUJOS

    Começo pela confissão de um sentimento conflituoso: é um prazer e uma honra ter recebido este convite e estar aqui convosco. Mas, ao mesmo tempo, não sei lidar com este nome pomposo: “oração de sapiência”. De propósito, escolhi um tema sobre o qual tenho apenas algumas, mal contidas, ignorâncias. Todos os dias somos confrontados com o apelo exaltante de combater a pobreza. E todos nós, de modo generoso e patriótico, queremos participar nessa batalha. Existem, no entanto, várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nós pensarmos como sujeitos históricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.

    Falarei aqui na minha qualidade de escritor tendo escolhido um terreno que é a nossa interioridade, um território em que somos todos amadores. Neste domínio ninguém tem licenciatura, nem pode ter a ousadia de proferir orações de “sapiência”. O único segredo, a única sabedoria é sermos verdadeiros, não termos medo de partilhar publicamente as nossas fragilidades. É isso que venho fazer, partilhar convosco algumas das minhas dúvidas, das minhas solitárias cogitações.

    Começo por um fait-divers. Há agora um anúncio nas nossas estações de rádio em que alguém pergunta à vizinha: diga-me minha senhora, o que é que se passa em sua casa, o seu filho é chefe de turma, as suas filhas casaram muito bem, o seu marido foi nomeado director, diga-me, querida vizinha, qual é o segredo? E a senhora responde: é que lá em casa nós comemos arroz marca…(não digo a marca porque não me pagaram este momento publicitário).

    Seria bom que assim que fosse, que a nossa vida mudasse só por consumirmos um produto alimentar. Já estou a ver o nosso Magnifico Reitor a distribuir o mágico arroz e a abrirem-se no ISCTEM as portas para o sucesso e para a felicidade. Mas ser- se feliz é, infelizmente, muito mais trabalhoso.

    No dia em que eu fiz 11 anos de idade, a 5 de Julho de 1966, o Presidente Kenneth Kaunda veio aos microfones da Rádio de Lusaka para anunciar que um dos grandes pilares da felicidade do seu povo tinha sido construído. Não falava de nenhuma marca de arroz. Ele agradecia ao povo da Zâmbia pelo seu envolvimento na criação da primeira universidade no país. Uns meses antes, Kaunda tinha lançado um apelo para que cada zambiano contribuísse para construir a Universidade.

    A resposta foi comovente: dezenas de milhares de pessoas corresponderam ao apelo. Camponeses deram milho, pescadores ofertaram pescado, funcionários deram dinheiro. Um país de gente analfabeta juntou-se para criar aquilo que imaginavam ser uma página nova na sua história.

    A mensagem dos camponeses na inauguração da Universidade dizia: nós demos porque acreditamos que, fazendo isto, os nossos netos deixarão de passar fome.

    Quarenta anos depois, os netos dos camponeses zambianos continuam sofrendo de fome. Na realidade, os zambianos vivem hoje pior do que viviam naquela altura. Na década de 60, a Zâmbia beneficiava de um Produto Nacional Bruto comparável aos de Singapura e da Malásia. Hoje, nem de perto nem de longe, se pode comparar o nosso vizinho com aqueles dois países da Ásia.

    Algumas nações africanas podem justificar a permanência da miséria porque sofreram guerras. Mas a Zâmbia nunca teve guerra. Alguns países podem argumentar que não possuem recursos. Todavia, a Zâmbia é uma nação com poderosos recursos minerais. De quem é a culpa deste frustrar de expectativas? Quem falhou? Foi a Universidade? Foi a sociedade? Foi o mundo inteiro que falhou? E porque razão Singapura e Malásia progrediram e a Zâmbia regrediu?

    Falei da Zâmbia como um país africano ao acaso. Infelizmente, não faltariam outros exemplos. O nosso continente está repleto de casos idênticos, de marchas falhadas, esperanças frustradas. Generalizou-se entre nós a descrença na possibilidade de mudarmos os destinos do nosso continente. Vale a pena perguntarmo-nos: o que está acontecer? O que é preciso mudar dentro e fora de África?

    Estas perguntas são sérias. Não podemos iludir as respostas, nem continuar a atirar poeira para ocultar responsabilidades. Não podemos aceitar que elas sejam apenas preocupação dos governos.

    Felizmente, estamos vivendo em Moçambique uma situação particular, com diferenças bem sensíveis. Temos que reconhecer e ter orgulho que o nosso percurso foi bem distinto. Acabamos recentemente de presenciar uma dessas diferenças. Desde 1957, apenas seis entre 153 chefes de estado africanos renunciaram voluntariamente ao poder. Joaquim Chissano é o sétimo desses presidentes. Parece um detalhe mas é bem indicativo que o processo moçambicano se guiou por outras lógicas bem diversas.

    Contudo, as conquistas da liberdade e da democracia que hoje usufruímos só serão definitivas quando se converterem em cultura de cada um de nós. E esse é ainda um caminho de gerações. Entretanto, pesam sobre Moçambique ameaças que são comuns a todo o continente. A fome, a miséria, as doenças, tudo isso nós partilhamos com o resto de África. Os números são aterradores: 90 milhões de africanos morrerão com SIDA nos próximos 20 anos. Para esse trágico número, Moçambique terá contribuído com cerca de 3 milhões de mortos. A maior parte destes condenados são jovens e representam exactamente a alavanca com que poderíamos remover o peso da miséria. Quer dizer, África não está só perdendo o seu próprio presente: está perdendo o chão onde nasceria um outro amanhã.

    Ter futuro custa muito dinheiro. Mas é muito mais caro só ter passado. Antes da Independência, para os camponeses zambianos não havia futuro. Hoje o único tempo que para eles existe é o futuro dos outros.

    Os desafios são maiores que esperança? Mas nós não podemos senão ser optimistas e fazer aquilo que os brasileiros chamam de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. O pessimismo é um luxo para os ricos.

    A pergunta crucial é esta: o que é que nos separa desse futuro que todos queremos? Alguns acreditam que o que falta são mais quadros, mais escolas, mais hospitais. Outros acreditam que precisamos de mais investidores, mais projectos económicos. Tudo isso é necessário, tudo isso é imprescindível. Mas para mim, há uma outra coisa que é ainda mais importante. Essa coisa tem um nome: é uma nova atitude. Se não mudarmos de atitude não conquistaremos uma condição melhor. Poderemos ter mais técnicos, mais hospitais, mais escolas, mas não seremos construtores de futuro.

    Falo de uma nova atitude mas a palavra deve ser pronunciada no plural, pois ela compõe um conjunto vasto de posturas, crenças, conceitos e preconceitos. Há muito que venho defendendo que o maior factor de atraso em Moçambique não se localiza na economia mas na incapacidade de gerarmos um pensamento produtivo, ousado e inovador. Um pensamento que não resulte da repetição de lugares comuns, de fórmulas e de receitas já pensadas pelos outros.

    Às vezes me pergunto: de onde vem a dificuldade em nós pensarmos como sujeitos da História? Vem sobretudo de termos legado sempre aos outros o desenho da nossa própria identidade. Primeiro, os africanos foram negados. O seu território era a ausência, o seu tempo estava fora da História. Depois, os africanos foram estudados como um caso clínico. Agora, são ajudados a sobreviver no quintal da História.

    Estamos todos nós estreando um combate interno para domesticar os nosso antigos fantasmas. Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinah que escolher e sete é um número mágico.

    O primeiro sapato: a ideia que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas

    Nós já conhecemos este discurso. A culpa já foi da guerra, do colonialismo, do imperialismo, do apartheid, enfim, de tudo e de todos. Menos nossa. É verdade que os outros tiveram a sua dose de culpa no nosso sofrimento. Mas parte da responsabilidade sempre morou dentro de casa.

    Estamos sendo vítimas de um longo processo de desresponsabilização. Esta lavagem de mãos tem sido estimulada por algumas elites africanas que querem permanecer na impunidade. Os culpados estão à partida encontrados: são os outros, os da outra etnia, os da outra raça, os da outra geografia.

    Há um tempo atrás fui sacudido por um livro intitulado Capitalist Nigger: The Road to Success de um nigeriano chamado Chika A. Onyeani. Reproduzi num jornal nosso um texto desse economista que é um apelo veemente para que os africanos renovem o olhar que mantém sobre si mesmos. Permitam-me que leia aqui um excerto dessa carta.

    Caros irmãos: Estou completamente cansado de pessoas que só pensam numa coisa: queixar-se e lamentar-se num ritual em que nos fabricamos mentalmente como vítimas. Choramos e lamentamos, lamentamos e choramos. Queixamo-nos até à náusea sobre o que os outros nos fizeram e continuam a fazer. E pensamos que o mundo nos deve qualquer coisa. Lamento dizer-vos que isto não passa de uma ilusão. Ninguém nos deve nada. Ninguém está disposto a abdicar daquilo que tem, com a justificação que nós também queremos o mesmo. Se quisermos algo temos que o saber conquistar. Não podemos continuar a mendigar, meus irmãos e minhas irmãs.
    40 anos depois da Independência continuamos a culpar os patrões coloniais por tudo o que acontece na África dos nossos dias. Os nossos dirigentes nem sempre são suficientemente honestos para aceitar a sua responsabilidade na pobreza dos nossos povos. Acusamos os europeus de roubar e pilhar os recursos naturais de África. Mas eu pergunto-vos: digam-me, quem está a convidar os europeus para assim procederem, não somos nós? (fim da citação)

    Queremos que outros nos olhem com dignidade e sem paternalismo. Mas ao mesmo tempo continuamos olhando para nós mesmos com benevolência complacente: Somos peritos na criação do discurso desculpabilizante. E dizemos:
    • Que alguém rouba porque, coitado, é pobre (esquecendo que há milhares de outros pobres que não roubam)
    • Que o funcionário ou o polícia são corruptos porque, coitados, tem um salário insuficiente (esquecendo que ninguém, neste mundo, tem salário suficiente)
    • Que o político abusou do poder porque, coitado, na tal África profunda, essas praticas são antropologicamente legitimas

    A desresponsabilização é um dos estigmas mais graves que pesa sobre nós, africanos de Norte a Sul. Há os que dizem que se trata de uma herança da escravatura, desse tempo em que não se era dono de si mesmo. O patrão, muitas vezes longínquo e invisível, era responsável pelo nosso destino. Ou pela ausência de destino.

    Hoje, nem sequer simbolicamente, matamos o antigo patrão. Uma das formas de tratamento que mais rapidamente emergiu de há uns dez anos para cá foi a palavra “patrão”. Foi como se nunca tivesse realmente morrido, como se espreitasse uma oportunidade histórica para se relançar no nosso quotidiano. Pode-se culpar alguém desse ressurgimento? Não. Mas nós estamos criando uma sociedade que produz desigualdades e que reproduz relações de poder que acreditávamos estarem já enterradas.

    Segundo sapato: a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho

    Ainda hoje despertei com a notícia que refere que um presidente africano vai mandar exorcizar o seu palácio de 300 quartos porque ele escuta ruídos “estranhos” durante a noite. O palácio é tão desproporcionado para a riqueza do país que demorou 20 anos a ser terminado. As insónias do presidente poderão nascer não de maus espíritos mas de uma certa má consciência.

    O episódio apenas ilustra o modo como, de uma forma dominante, ainda explicamos os fenómenos positivos e negativos. O que explica a desgraça mora junto do que justifica a bem-aventurança. A equipe desportiva ganha, a obra de arte é premiada, a empresa tem lucros, o funcionário foi promovido? Tudo isso se deve a quê? A primeira resposta, meus amigos, todos a conhecemos. O sucesso deve-se à boa sorte. E a palavra “boa sorte” quer dizer duas coisas: a protecção dos antepassados mortos e protecção dos padrinhos vivos.

    Nunca ou quase nunca se vê o êxito como resultado do esforço, do trabalho como um investimento a longo prazo. As causas do que nos sucede (de bom ou mau) são atribuídas a forças invisíveis que comandam o destino. Para alguns esta visão causal é tida como tão intrinsecamente “africana” que perderíamos “identidade” se dela abdicássemos. Os debates sobre as “autenticas” identidades são sempre escorregadios. Vale a pena debatermos, sim, se não poderemos reforçar uma visão mais produtiva e que aponte para uma atitude mais activa e interventiva sobre o curso da História.

    Infelizmente olhamo-nos mais como consumidores do que produtores. A ideia de que África pode produzir arte, ciência e pensamento é estranha mesmo para muitos africanos. Ate aqui o continente produziu recursos naturais e força laboral.

    Produziu futebolistas, dançarinos, escultores. Tudo isso se aceita, tudo isso reside no domínio daquilo eu se entende como natureza”. Mas já poucos aceitarão que os africanos possam ser produtores de ideias, de ética e de modernidade. Não é preciso que os outros desacreditem. Nós próprios nos encarregamos dessa descrença.

    O ditado diz. “o cabrito come onde está amarrado”. Todos conhecemos o lamentável uso deste aforismo e como ele fundamenta a acção de gente que tira partido das situações e dos lugares. Já é triste que nos equiparemos a um cabrito. Mas também é sintomático que, nestes provérbios de conveniência nunca nos identificamos como os animais produtores, como é por exemplo a formiga. Imaginemos que o ditado muda e passar a ser assim: “Cabrito produz onde está amarrado.” Eu aposto que, nesse caso, ninguém mais queria ser cabrito.

    Terceiro sapato- O preconceito de quem critica é um inimigo

    Muitas acreditam que, com o fim do monopartidarismo, terminaria a intolerância para com os que pensavam diferente. Mas a intolerância não é apenas fruto de regimes. É fruto de culturas, é o resultado da História. Herdamos da sociedade rural uma noção de lealdade que é demasiado paroquial. Esse desencorajar do espírito crítico é ainda mais grave quando se trata da juventude. O universo rural é fundado na autoridade da idade. Aquele que é jovem, aquele que não casou nem teve filhos, esse não tem direitos, não tem voz nem visibilidade. A mesma marginalização pesa sobre a mulher.

    Toda essa herança não ajuda a que se crie uma cultura de discussão frontal e aberta. Muito do debate de ideias é, assim, substituído pela agressão pessoal. Basta diabolizar quem pensa de modo diverso. Existe uma variedade de demónios à disposição: uma cor política, uma cor de alma, uma cor de pele, uma origem social ou religiosa diversa.

    Há neste domínio um componente histórico recente que devemos considerar: Moçambique nasceu da luta de guerrilha. Essa herança deu-nos um sentido épico da história e um profundo orgulho no modo como a independência foi conquistada. Mas a luta armada de libertação nacional também cedeu, por inércia, a ideia de que o povo era uma espécie de exército e podia ser comandado por via de disciplina militar. Nos anos pós-independência, todos éramos militantes, todos tínhamos uma só causa, a nossa alma inteira vergava-se em continência na presença dos chefes. E havia tantos chefes. Essa herança não ajudou a que nascesse uma capacidade de insubordinação positiva.

    Faço-vos agora uma confidência. No início da década de 80 fiz parte de um grupo de escritores e músicos a quem foi dada a incumbência de produzir um novo Hino Nacional e um novo Hino para o Partido Frelimo. A forma como recebemos a tarefa era indicadora dessa disciplina: recebemos a missão, fomos requisitados aos nossos serviços, e a mando do Presidente Samora Machel fomos fechados numa residência na Matola, tendo-nos sido dito: só saem daí quando tiverem feito os hinos. Esta relação entre o poder e os artistas só é pensável num dado quadro histórico. O que é certo é que nós aceitámos com dignidade essa incumbência, essa tarefa surgia como uma honra e um dever patriótico. E realmente lá nos comportamos mais ou menos bem. Era um momento de grandes dificuldades …e as tentações eram muitas. Nessa residência na Matola havia comida, empregados, piscina… num momento em que tudo isso faltava na cidade. Nos primeiros dias, confesso nós estávamos fascinados com tanta mordomia e ficávamos preguiçando e só corríamos para o piano quando ouvíamos as sirenes dos chefes que chegavam. Esse sentimento de desobediência adolescente era o nosso modo de exercermos uma pequena vingança contra essa disciplina de regimento.

    Na letra de um dos hinos lá estava reflectida essa tendência militarizada, essa aproximação metafórica a que já fiz referência:

    Somos soldados do povo
    Marchando em frente

    Tudo isto tem que ser olhado no seu contexto sem ressentimento. Afinal, foi assim, que nasceu a Pátria Amada, este hino que nos canta como um só povo, unido por um sonho comum.

    Quarto sapato: a ideia que mudar as palavras muda a realidade

    Uma vez em Nova Iorque um compatriota nosso fazia uma exposição sobre a situação da nossa economia e, a certo momento, falou de mercado negro. Foi o fim do mundo. Vozes indignadas de protesto se ergueram e o meu pobre amigo teve que interromper sem entender bem o que se estava a passar. No dia seguinte recebíamos uma espécie de pequeno dicionário dos termos politicamente incorrectos. Estavam banidos da língua termos como cego, surdo, gordo, magro, etc…

    Nós fomos a reboque destas preocupações de ordem cosmética. Estamos reproduzindo um discurso que privilegia o superficial e que sugere que, mudando a cobertura, o bolo passa a ser comestível. Hoje assistimos, por exemplo, a hesitações sobre se devemos dizer “negro” ou “preto”. Como se o problema estivesse nas palavras, em si mesmas. O curioso é que, enquanto nos entretemos com essa escolha, vamos mantendo designações que são realmente pejorativas como as de mulato e de monhé.

    Há toda uma geração que está aprendendo uma língua – a língua dos workshops. É uma língua simples uma espécie de crioulo a meio caminho entre o inglês e o português. Na realidade, não é uma língua mas um vocabulário de pacotilha. Basta saber agitar umas tantas palavras da moda para falarmos como os outros isto é, para não dizermos nada. Recomendo-vos fortemente uns tantos termos como, por exemplo:

    - desenvolvimento sustentável
    - awarenesses ou accountability
    - boa governação
    - parcerias sejam elas inteligentes ou não
    - comunidades locais

    Estes ingredientes devem ser usados de preferência num formato “powerpoint. Outro segredo para fazer boa figura nos workshops é fazer uso de umas tantas siglas. Porque um workshopista de categoria domina esses códigos. Cito aqui uma possível frase de um possível relatório:
    Os ODMS do PNUD equiparam-se ao NEPAD da UA e ao PARPA do GOM. Para bom entendedor meia sigla basta.

    Sou de um tempo em que o que éramos era medido pelo que fazíamos. Hoje o que somos é medido pelo espectáculo que fazemos de nós mesmos, pelo modo como nos colocamos na montra. O CV, o cartão de visitas cheio de requintes e títulos, a bibliografia de publicações que quase ninguém leu, tudo isso parece sugerir uma coisa: a aparência passou a valer mais do que a capacidade para fazermos coisas.

    Muitas das instituições que deviam produzir ideias estão hoje produzindo papéis, atafulhando prateleiras de relatórios condenados a serem arquivo morto. Em lugar de soluções encontram-se problemas. Em lugar de acções sugerem-se novos estudos.

    Quinto sapato A vergonha de ser pobre e o culto das aparências

    A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza.

    Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.

    Recordo-me que certa vez entendi comprar uma viatura em Maputo. Quando o vendedor reparou no carro que eu tinha escolhido quase lhe deu um ataque. “Mas esse, senhor Mia, o senhor necessita de uma viatura compatível”. O termo é curioso: “compatível”.

    Estamos vivendo num palco de teatro e de representações: uma viatura já é não um objecto funcional. É um passaporte para um estatuto de importância, uma fonte de vaidades. O carro converteu-se num motivo de idolatria, numa espécie de santuário, numa verdadeira obsessão promocional.

    Esta doença, esta religião que se podia chamar viaturolatria atacou desde o dirigente do Estado ao menino da rua. Um miúdo que não sabe ler é capaz de conhecer a marca e os detalhes todos dos modelos de viaturas. É triste que o horizonte de ambições seja tão vazio e se reduza ao brilho de uma marca de automóvel.

    É urgente que as nossas escolas exaltem a humildade e a simplicidade como valores positivos.

    A arrogância e o exibicionismo não são, como se pretende, emanações de alguma essência da cultura africana do poder. São emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo.

    Sexto Sapato A passividade perante a injustiça

    Estarmos dispostos a denunciar injustiças quando são cometidas contra a nossa pessoa, o nosso grupo, a nossa etnia, a nossa religião. Estamos menos dispostos quando a injustiça é praticada contra os outros. Persistem em Moçambique zonas silenciosas de injustiça, áreas onde o crime permanece invisível. Refiro-me em particular à:

    - violência domestica (40 por cento dos crimes resultam de agressão domestica contra mulheres, esse é um crime invisível)
    - violência contra as viúvas
    - à forma aviltante como são tratados muitos dos trabalhadores
    - aos maus tratos infligidos às crianças

    Ainda há dias ficamos escandalizados com o recente anúncio que privilegiava candidatos de raça branca. Tomaram-se medidas imediatas e isso foi absolutamente correcto. Contudo, existem convites à discriminação que são tão ou mais graves e que aceitamos como sendo naturais e inquestionáveis.

    Tomemos esse anúncio do jornal e imaginemos que ele tinha sido redigido de forma correcta e não racial. Será que tudo estava bem? Eu não sei se todos estão a par de qual é a tiragem do jornal Notícias. São 13 mil exemplares. Mesmo se aceitarmos que cada jornal é lido por 5 pessoas, temos que o numero de leitores é menor que a população de um bairro de Maputo. É dentro deste universo que circulam convites e os acessos a oportunidades. Falei na tiragem mas deixei de lado o problema da circulação. Por que geografia restrita circulam as mensagens dos nossos jornais? Quanto de Moçambique é deixado de fora ?

    É verdade que esta discriminação não é comparável à do anúncio racista porque não é não resultado de acção explícita e consciente. Mas os efeitos de discriminação e exclusão destas práticas sociais devem ser pensados e não podem cair no saco da normalidade. Esse “bairro” das 60 000 pessoas é hoje uma nação dentro da nação, uma nação que chega primeiro, que troca entre si favores, que vive em português e dorme na almofada na escrita.

    Um outro exemplo. Estamos administrando anti-retro-virais a cerca de 30 mil doentes com SIDA. Esse número poderá, nos próximos anos, chegar aos 50 000. Isso significa que cerca de um milhão quatrocentos e cinquenta mil doentes ficam excluídos de tratamento. Trata-se de uma decisão com implicações éticas terríveis. Como e quem decide quem fica de fora? É aceitável, pergunto, que a vida de um milhão e meio de cidadãos esteja nas mãos de um pequeno grupo técnico?

    Sétimo sapato – A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros

    Todos os dias recebemos estranhas visitas em nossa casa. Entram por uma caixa mágica chamada televisão. Criam uma relação de virtual familiaridade. Aos poucos passamos a ser nós quem acredita estar vivendo fora, dançando nos braços de Janet Jackson. O que os vídeos e toda a sub-indústria televisiva nos vem dizer não é apenas “comprem”. Há todo um outro convite que é este: “sejam como nós”. Este apelo à imitação cai como ouro sobre azul: a vergonha em sermos quem somos é um trampolim para vestirmos esta outra máscara.

    O resultado é que a produção cultural nossa se está convertendo na reprodução macaqueada da cultura dos outros. O futuro da nossa música poderá ser uma espécie de hip-hop tropical, o destino da nossa culinária poderá ser o Mac Donald’s.

    Falamos da erosão dos solos, da deflorestação, mas a erosão das nossas culturas é ainda mais preocupante. A secundarização das línguas moçambicanas (incluindo da língua portuguesa) e a ideia que só temos identidade naquilo que é folclórico são modos de nos soprarem ao ouvido a seguinte mensagem: só somos modernos se formos americanos.

    O nosso corpo social tem a uma história similar a de um indivíduo. Somos marcados por rituais de transição: o nascimento, o casamento, o fim da adolescência, o fim da vida.

    Eu olho a nossa sociedade urbana e pergunto-me: será que queremos realmente ser diferentes ? Porque eu vejo que esses rituais de passagem se reproduzem como fotocópia fiel daquilo que eu sempre conheci na sociedade colonial. Estamos dançando a valsa, com vestidos compridos, num baile de finalistas que é decalcado daquele do meu tempo. Estamos copiando as cerimónias de final do curso a partir de modelos europeus de Inglaterra medieval. Casamo-nos de véus e grinaldas e atiramos para longe da Julius Nyerere tudo aquilo que possa sugerir uma cerimónia mais enraizada na terra e na tradição moçambicanas.

    Falei da carga de que nos devemos desembaraçar para entrarmos a corpo inteiro na modernidade. Mas a modernidade não é uma porta apenas feita pelos outros. Nós somos também carpinteiros dessa construção e só nos interessa entrar numa modernidade de que sejamos também construtores.

    A minha mensagem é simples: mais do que uma geração tecnicamente capaz, nós necessitamos de uma geração capaz de questionar a técnica. Uma juventude capaz de repensar o país e o mundo. Mais do que gente preparada para dar respostas, necessitamos de capacidade para fazer perguntas. Moçambique não precisa apenas de caminhar. Necessita de descobrir o seu próprio caminho num tempo enevoado e num mundo sem rumo. A bússola dos outros não serve, o mapa dos outros não ajuda. Necessitamos de inventar os nossos próprios pontos cardeais. Interessa-nos um passado que não esteja carregado de preconceitos, interessa-nos um futuro que não nos venha desenhado como um receita financeira.

    A Universidade deve ser um centro de debate, uma fábrica de cidadania activa, uma forja de inquietações solidárias e de rebeldia construtiva. Não podemos treinar jovens profissionais de sucesso num oceano de miséria. A Universidade não pode aceitar ser reprodutor da injustiça e da desigualdade. Estamos lidando com jovens e com aquilo que deve ser um pensamento jovem, fértil e produtivo. Esse pensamento não se encomenda, não nasce sozinho. Nasce do debate, da pesquisa inovadora, da informação aberta e atenta ao que de melhor está surgindo em África e no mundo.

    A questão é esta: fala-se muito dos jovens. Fala-se pouco com os jovens. Ou melhor, fala-se com eles quando se convertem num problema. A juventude vive essa condição ambígua, dançando entre a visão romantizada (ela é a seiva da Nação) e uma condição maligna, um ninho de riscos e preocupações (a SIDA, a droga, o desemprego).

    Não foi apenas a Zâmbia a ver na educação aquilo que o naufrago vê num barco salva-vidas. Nós também depositamos os nossos sonhos nessa conta.

    Numa sessão pública decorrida no ano passado em Maputo um já idoso nacionalista disse, com verdade e com coragem, o que já muitos sabíamos. Ele confessou que ele mesmo e muitos dos que, nos anos 60, fugiam para a FRELIMO não eram apenas motivados por dedicação a uma causa independentista. Eles arriscaram-se e saltaram a fronteira do medo para terem possibilidade de estudar. O fascínio pela educação como um passaporte para uma vida melhor estava presente um universo em que quase ninguém podia estudar. Essa restrição era comum a toda a África. Até 1940 o número de africanos que frequentavam escolas secundárias não chegava a 11 000. Hoje, a situação melhorou e esse número foi multiplicado milhares e milhares de vezes. O continente investiu na criação de novas capacidades. E esse investimento produziu, sem dúvida, resultados importantes.

    Aos poucos se torna claro, porém, que mais quadros técnicos não resolvem, só por si, a miséria de uma nação. Se um país não possuir estratégias viradas para a produção de soluções profundas então todo esse investimento não produzirá a desejada diferença. Se as capacidades de uma nação estiverem viradas para o enriquecimento rápido de uma pequena elite então de pouco valerá termos mais quadros técnicos.

    A escola é um meio para querermos o que não temos. A vida, depois, nos ensina a termos aquilo que não queremos. Entre a escola e a vida resta-nos ser verdadeiros e confessar aos mais jovens que nós também não sabemos e que, nós, professores e pais, também estamos à procura de respostas.

    Com o novo governo ressurgiu o combate pela auto-estima. Isso é correcto e é oportuno. Temos que gostar de nós mesmos, temos que acreditar nas nossas capacidades. Mas esse apelo ao amor-próprio não pode ser fundado numa vaidade vazia, numa espécie de narcisismo fútil e sem fundamento. Alguns acreditam que vamos resgatar esse orgulho na visitação do passado. É verdade que é preciso sentir que temos raízes e que essas raízes nos honram. Mas a auto-estima não pode ser construída apenas de materiais do passado.

    Na realidade, só existe um modo de nos valorizar: é pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. É preciso que saibamos aceitar esta condição sem complexos e sem vergonha: somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela História. Mas nós fizemos parte dessa História, fomos também empobrecidos por nós próprios. A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós.

    Mas a força de superarmos a nossa condição histórica também reside dentro de nós. Saberemos como já soubemos antes conquistar certezas que somos produtores do nosso destino. Teremos mais e mais orgulho em sermos quem somos: moçambicanos construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. É por isso que vale a pena aceitarmos descalçar não só os setes mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha colectiva. Porque a verdade é uma: antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.

    http://www.macua.org/miacouto/MiaCoutoISCTEM2005.htm

    Dorah Andrade, aluna do Método DeRose Paes de Barros – São Paulo – Brasil

    [ Reply ]

    You Submit on Thu Nov 17 21:07:58 2011:

    É… não tenho mesmo tempo para ler. Deve ser interessantíssimo. No entanto, fico matutando, o que será que a minha querida amiga Dorah Andrade sabe a respeito da minha vida, rotina e compromissos para me enviar um texto que não vou ter condições de ler. Certamente, a minha amiga gosta de mim. Peço que se coloque no meu lugar. Beijinhos.

Deixe um Comentário

Equipe de Desenvolvimento:

Daniel Cambría   |   Coordenação Geral http://www.facebook.com/danielcambria

Tiago Pimentel   |   Layout & Identidade Visual https://www.facebook.com/tiagopimentel http://www.flickr.com/designinabox

Alex William   |   Programação Visual (Front End) http://www.facebook.com/alex.brasileiro http://www.artinblog.com

Douglas Gonzalez   |   Programação Back End http://www.facebook.com/douglas.s.gonzalez

Visite o Office em facebook.com/officemetododerose