Dois sequestros no Oriente
Com tantos anos de viagens à Índia, era inevitável que alguns contratempos ocorressem vez por outra. Os mais inconvenientes foram sequestros dos aviões em que eu viajava.
No Irã
Em 1980, ocorreu a invasão da Embaixada Estadunidense no Irã e fizeram vários reféns que ficaram presos até 1981. Nesse ano, quando eu viajava novamente para a Índia, nosso avião desceu para abastecer na capital iraniana, Teerã, e as autoridades locais não permitiram mais que a aeronave decolasse.
Também não permitiram que os passageiros desembarcassem. Fazia um calor de quarenta graus. Os pilotos não tinham autorização para ligar as turbinas que acionariam o ar condicionado, o que tornou o calor insuportável. A água potável a bordo, acabou! Eu bendisse, mais uma vez, o fato de ter um excelente controle da sede. Os banheiros foram ficando cada vez mais emporcalhados, pois o uso do sanitário químico é previsto para um determinado número de utilizações, o qual foi superado cem vezes, pelo tempo e pelo medo que os passageiros sentiam. O mau cheiro na cabine era indescritível. As mulheres choravam, os homens tinham chiliques, pessoas passavam mal…
Não havia informações. Só sabíamos que as autoridades francesas estavam negociando por meios diplomáticos a nossa libertação. Hoje, imagino que foi uma sorte ter viajado pela Air France. Se tivesse sido pela Pan American, a situação teria sido bem pior.
De vez em quando uns militares passavam mandando que mostrássemos os passaportes. Nunca na minha vida gostei tanto de ser brasileiro. Eles foram bem rudes com os europeus e agrediram fisicamente os estadunidenses. Mas quando viram o meu passaporte – pasme! – foram muito cordiais, sorriram para mim e mencionaram o Pelé!
Lá ficamos por uma eternidade (o tempo não é distorcido pela emoção?). Finalmente, as negociações do Governo Francês deram certo e Teerã autorizou que o nosso avião levantasse voo. Pensei cá comigo: “Que ideia de jerico sair do conforto da minha casa e viajar para o Oriente! Nunca mais irei à Índia!” Mas, depois dessa experiência, voltei a fazer a mesma viagem por mais dezenove anos…
No Paquistão
Tempos depois, sobrevoando o Paquistão, passamos por um estresse ainda maior. Dois caças da Força Aérea Paquistanesa emparelharam com o nosso avião. Desta vez, era Pan American! Dispararam alguns tiros de advertência com seus canhões (víamos os projéteis traçantes passando rentes à fuselagem da nossa aeronave) e obrigaram o piloto a descer em Karachi.
Assim que aterrissamos, um pelotão armado invadiu a cabine de passageiros, recolheu os passaportes de todos, mandou que desembarcassem e entrassem nos caminhões do exército que estavam à nossa espera. Nesses veículos fomos conduzidos a uns alojamentos. Como era noite e estava muito escuro, não sei ao certo se eram instalações militares, se eram cárceres ou se eram quartos de algum hotel de duas estrelas abaixo de zero. Pedidos de informações ou de esclarecimentos eram respondidos com a coronha dos fuzis, como você já deve ter visto no cinema.
Trancaram-nos e nos deixaram lá a noite toda, sem alimento, sem água, sem comunicação uns com os outros. Eu dormi a noite toda, mas teve gente que não pregou o olho. Na manhã seguinte, fomos escoltados de volta para o avião, decolamos e fomos felizes para sempre!




sábado, 21 de fevereiro de 2009 às 14:39
alexandremontagna.com
Belo texto para ilustrar o comportamento do SwáSthya yôgin perante às adversidades: serenidade e low profile (discrição).
“Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta, e o coração tranquilo”. Walter Franco
Alexandre Montagna Reply:
fevereiro 21st, 2009 at 14:51
Mas na cena dos tiros passando perto da fuselagem, confesso que eu tremeria um pouco nas bases hahaha.
Quantas histórias tens para contar, hein Mestre!!
sábado, 21 de fevereiro de 2009 às 14:40
No Brasil teve aquela vez durante a ditadura militar num conflito com um general que o Mestre se saiu super bem também.
DeRose Reply:
fevereiro 21st, 2009 at 15:09
Não me lembro desse conflito, Everton. Está no Ser Forte? Me dá uma dica para que eu localize a história. Abraço.
Everton Reply:
fevereiro 21st, 2009 at 15:54
Acredito que eu tenha lido em uma edição mais antiga do Mitos ou visto em algum vídeo infelizmente já não sei mais ao certo onde foi, mas assim que reencontrar posso postar aqui a história inteira.
Mas o que me lembro é o seguinte: teve um interrogatório militar com direito àquelas perguntas dirigidas à incriminação e tudo e que depois de algum tempo naquela coisa o Mestre ainda teria ensinado alguma técnica de Yôga ao interrogador e ao final ainda podesse ouvir o sujeito falando com o seu supevisor que seria essa referida pessoa, a mesma que armou o interrogatório e era um general do exercíto conhecido no métier.
Minha memória está enganada? Se estiver, peço que corriga-me por favor!
DeRose Reply:
fevereiro 22nd, 2009 at 2:34
Quase lá, Everton. O fato que se passou na década de 1960 não foi com um general, e sim com um coronel que ensinava Yóga. Essa história está publicada em um dos meus livros e o referido senhor nunca desmentiu.
Everton Reply:
fevereiro 21st, 2009 at 16:40
Minha memória tem o péssimo hábito de só reter o abstrato e ignorar o concreto de outra forma eu poderia dar mais detalhes a respeito.
sábado, 21 de fevereiro de 2009 às 17:34
julianatoroswasthya.multiply.com
Uau Mestre!!Esses dias uma amiga me falava que tinha vontade de ir até a India (talves por causa da novela=p),e eu estava dizendo a ela que as coisas por lá não são tão simples como se pensa né? Pelo visto,mesmo antes de se chegar..hehehe sempre bom saber dessas histórias!!
Beijãozão de carnaval =D
Juju
sábado, 21 de fevereiro de 2009 às 19:29
yogabatel.blogspot.com
Pois é De, deve ter sido sofrido e chato esses momentos, mas com certeza não deve ter sido tão sofrido quanto as calúnias que pessoas invejosas e sem escrúpulos perpetuam. Mas pode ter certeza, para cada uma ofensa, haverá no mínimo mil elogios.
Beijos
Rê
sábado, 21 de fevereiro de 2009 às 20:44
Konbanwa, Mestre & Fée!^-^
Que loucura, ainda bem que terminou tudo bem! *ufa*
Sobre ser brasileiro, em janeiro, uma reportagem na Globo (infelizmente não localizei nenhum link até agora com essa reportagem em especial) sobre o bombardeio entre israelenses e palestinos mostrou que, como uma frágil proteção, foi colocada uma bandeira do Brasil no topo da casa de um israelense, para que os palestinos a poupassem no bombardeio (ou tentassem, talvez).
Diz o ditado que não se agrada a gregos e troianos ao mesmo tempo, mas, nessas horas, chegamos bem perto.
domingo, 22 de fevereiro de 2009 às 1:49
uni-yoga.org
Não creio, Alezinha, pois aquele texto nunca foi publicado. Você o conheceu porque estávamos avaliando diversos escritos, inclusive alguns inéditos. Beijinhos.
DeRose Reply:
fevereiro 22nd, 2009 at 23:17
Sim, são. Que postagem? Pode ter sido aprovado por engano meu ou do mediador, já que ele também aprova. Vou procurar, mas se você me informar, ajuda a localizar. Beijos.
domingo, 22 de fevereiro de 2009 às 3:16
uni-yoga.org
OK, Alezinha, não postarei.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009 às 14:46
YogaKobrasol.com.br
Quanta aventura hein!
quinta-feira, 12 de março de 2009 às 15:07
Obrigado por essa postagem e por ter escrito esse livro, Mestre. Gosto muito desses exemplos de sankalpa, pois tiram a visão estereotipada de que lugar de yôgin é em mosteiro isolado dos problemas do mundo.